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Pássaro encantado

quinta-feira, 3 de março de 2011

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. 
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: Era encantado. 
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola estiver aberta, vão embora para nunca mais voltar. 
Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades... 
Suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. 
Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. 
Certa vez, voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão. 
Menina, eu venho de montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco de encanto que eu vi, como presente para você.... 
E assim ele começava a cantar as canções e as estórias daquele mundo que a menina nunca vira. 
Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro. 
Outra vez voltou vermelho como fogo, penacho dourado na cabeça. 
... Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. 
Minhas penas ficaram como aquele sol e eu trago canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes. 
E de novo começavam as estórias. 
A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. 
E o pássaro amava a menina, e por isso voltava sempre. 
Mas chegava sempre uma hora de tristeza. 
Tenho que ir, ele dizia. 
Por favor não vá, fico tão triste, terei saudades e vou chorar..... 
Eu também terei saudades, dizia o pássaro. Eu também vou chorar. 
Mas eu vou lhe contar um segredo: As plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios... 
E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera da volta, que faz com que minhas penas fiquem bonitas. 
Se eu não for, não haverá saudades. 
Eu deixarei de ser um pássaro encantado e você deixará de me amar. 
Assim ele partiu. A menina sozinha, chorava de tristeza à noite. 
Imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa destas noites que ela teve uma idéia malvada. 
Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá; será meu para sempre. 
Nunca mais terei saudades, e ficarei feliz. 
Com estes pensamentos comprou uma linda gaiola, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. 
Finalmente ele chegou, maravilhoso, com suas novas cores, com estórias diferentes para contar. 
Cansado da viagem, adormeceu. 
Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz. 
Foi acordar de madrugada, com um gemido triste do pássaro. 
Ah! Menina... Que é que você fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das estórias.... 
Sem a saudade, o amor irá embora... 
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. 
Mas isto não aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ia ficando diferente. 
Caíram suas plumas, os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. 
E veio o silêncio, deixou de cantar. 
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. 
E de noite ela chorava pensando naquilo que havia feito ao seu amigo... 
Até que não mais agüentou. 
Abriu a porta da gaiola. 
Pode ir, pássaro, volte quando quiser... 
Obrigado, menina. É, eu tenho que partir. É preciso partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro da gente. 
Sempre que você ficar com saudades, eu ficarei mais bonito. 
Sempre que eu ficar com saudades, você ficará mais bonita. E você se enfeitará para me esperar... 
E partiu. Voou que voou para lugares distantes. A menina contava os dias, e cada dia que passava a saudade crescia. 
Que bom, pensava ela, meu pássaro está ficando encantado de novo... 
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos; e penteava seus cabelos, colocava flores nos vasos... 
Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje... 
Sem que ela percebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado como o pássaro. 
Porque em algum lugar ele deveria estar voando. De algum lugar ele haveria de voltar. 
AH! Mundo maravilhoso que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama... 
E foi assim que ela, cada noite ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento. 
Quem sabe ele voltará amanhã.... 
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro. 

Rubens Alves 

A VERDADE E A PARÁBOLA (CONTO JUDAICO)






     Um dia, a Verdade decidiu visitar os homens, sem roupas e sem adornos, tão nua como seu próprio nome.

     E todos que a viam lhe viravam as costas de vergonha ou de medo, e ninguém lhe dava as boas-vindas. 

     Assim, a Verdade percorria os confins da Terra, criticada, rejeitada e desprezada. 

     Uma tarde, muito desconsolada e triste, encontrou a Parábola, que passeava alegremente, trajando um belo vestido e muito elegante. 

     — Verdade, por que você está tão abatida? — perguntou a Parábola. 

     — Porque devo ser muito feia e antipática, já que os homens me evitam tanto! — respondeu a amargurada Parábola.

     — Que disparate! — Sorriu a Parábola. — Não é por isso que os homens evitam você. Tome. Vista algumas das minhas roupas e veja o que acontece. 

     Então, a Verdade pôs algumas das lindas vestes da Parábola, e, de repente, por toda parte onde passava era bem-vinda e festejada.



     Os seres humanos não gostam de encarar a Verdade sem adornos. Eles preferem-na disfarçada. 

Real felicidade

quarta-feira, 2 de março de 2011

 

Fazer alguém feliz é algo bastante simples, mas o ser humano, como sempre, tem o poder de complicar as coisas.
E se enrola de tal forma que sua maior dificuldade é manifestar sua gratidão.
Quando vai fazê-lo sempre pensa numa recompensa material, um presente ou algo no gênero.
Mas nem sempre é o que a outra pessoa estava precisando ou querendo.
Quantas vezes não andamos quilômetros de vitrines procurando um presente especial para nossa mãe, sendo que aquilo que ela mais queria era a nossa companhia. Ou um abraço forte passando toda nossa energia.
E assim é com os pais, filhos, amigos, chefes, subalternos…
Como somos materialistas sempre pensamos em manifestar o nosso carinho de maneira palpável.
E como estamos sempre correndo e ocupados, não temos tempo sequer para perceber as necessidades e desejos das pessoas que estão próximas de nós. Para compensar, compramos alguma coisa.
Afinal é sempre mais barato do que doar-se. É bem mais fácil do que ativar a nossa percepção.
Além de ser bem mais cômodo. O ser humano tem o poder (que ele próprio desconhece) de se comunicar através do sentimento, do olhar, do pensamento, do tato. Mas insiste em usar apenas o bolso. É a cultura materialista.
Como se pode ver, para fazer alguém feliz basta ter sensibilidade, percepção, sabedoria e amor sincero.
Estas sim, são as maiores riquezas do ser humano.

Volte Para Casa







A prática de usar coisas terrenas para esclarecer verdades celestiais não é uma tarefa fácil. Todavia, ocasionalmente, encontramos uma história, uma lenda ou fábula que transmite uma mensagem tão exatamente como centenas de sermões e com uma criatividade dez vezes maior. Esse é o caso da leitura abaixo. Eu a ouvi contada pela primeira vez por um pregador brasileiro em São Paulo. Embora a tivesse repetido inúmeras vezes, sua mensagem me aquece e me dá nova segurança sempre que faço uma recapitulação da história.
A casinha era simples mas adequada. Ela consistia de um quarto amplo numa rua empoeirada. Seu telhado de telhas vermelhas era um dentre os muitos naquele bairro pobre na periferia da cidade. Era uma casa confortável. Maria e sua filha, Cristina, haviam feito o possível para acrescentar cor às paredes cinzentas e calor ao chão de terra batida: um velho calendário, uma fotografia desbotada de um parente, um crucifixo de madeira. A mobília era modesta: um catre em cada lado do quarto, uma pia e um fogão a lenha.
O marido de Maria morrera quando Cristina era criança. A jovem mãe, recusando teimosamente casar-se de novo, arranjou um emprego e criou a filha do`melhor modo que pôde. Agora, quinze anos mais tarde, os piores anos tinham passado. Embora o salário de doméstica recebido por Maria não lhes permitisse muitos luxos, ele era certo e fornecia às duas alimento e roupas. Cristina tinha também chegado a uma idade em que poderia arranjar um emprego e ajudar a mãe.
Alguns diziam que Cristina puxara à mãe em sua independência. Ela repelia a idéia de casar-se cedo e criar uma família, embora pudesse escolher entre vários pretendentes. Sua pele morena e olhos castanhos atraíam uma série de candidatos à sua porta. Ela tinha um jeito especial de jogar a cabeça para trás e encher o ambiente de riso. Tinha também aquela magia rara que algumas mulheres têm de fazer com que o homem se sinta um rei só por estar a seu lado. Mas a sua maneira irônica de tratar as pessoas mantinha todos os homens a uma certa distância.
Cristina falava muito de ir para a cidade. Ela sonhava em trocar seu bairro poeirento por avenidas suntuosas e a vida citadina. Essa idéia horrorizava a mãe. Maria imediatamente lembrava Cristina dos males das cidades grandes. "As pessoas não conhecem você. Os empregos são difíceis de achar e a vida é cruel. Além disso, se fosse para lá, como iria viver?"
Maria sabia exatamente o que Cristina faria, ou teria de fazer para sustentar-se. Foi por isso que seu coração partiu-se ao acordar certa manhã e ver vazio o leito da filha. Maria soube na mesma hora para onde ela havia ido e sabia também o que deveria fazer para encontrá-la bem depressa. Jogou algumas roupas na mala, reuniu todo o dinheiro que tinha e saiu correndo de casa.
A caminho do ponto de ônibus entrou numa lojinha para a última compra. Fotos. Ela sentou-se na cabine de fotografia, fechou a cortina e tirou fotos suas, gastando quanto pôde. Com a bolsa cheia de fotografias preto-e-branco de si mesma, ela tomou o primeiro ônibus que saía para o Rio de Janeiro.
Maria tinha certeza que Cristina não conseguiria ganhar dinheiro com facilidade. Sabia, entretanto, que ela era teimosa demais para desistir. Quando o orgulho se encontra com a fome, o ser humano faz coisas que jamais pensava fazer antes. Tendo conhecimento disto, Maria começou suas busca. Bares, hotéis, boates, qualquer lugar onde pudesse ha-ver uma meretriz ou prostituta. Foi a todos. E em cada lugar deixou sua foto — colada no espelho do banheiro, pregada num quadro de avisos de hotel, presa numa cabine telefônica. E no verso de cada uma escreveu uma nota.
Não demorou muito para que o dinheiro e as fotografias acabassem e Maria teve de voltar para casa. A mãe cansada chorou enquanto o ônibus iniciava sua longa jornada de volta para sua cidadezinha.
Algumas semanas depois a jovem Cristina desceu as escadas do hotel. Seu rosto mostrava-se pálido. Seus olhos castanhos não dançavam mais, alegres e buliçosos, mas falavam de sofrimento e medo. Seu riso se fora. Os sonhos que tivera se transformaram em pesadelo. Mil vezes quisera trocar aqueles inúmeros leitos por seu catre seguro. Todavia, a cidadezinha em que vivera se tornara de muitas formas distante demais.
Ao chegar ao pé da escada, seus olhos notaram um rosto familiar. Ela olhou de novo e ali no espelho do saguão estava uma fotografia da mãe. Os olhos de Cristina queimaram e sua garganta contraiu-se, enquanto atravessava o salão e removia a pequena foto. Escrita no verso da mesma, achava-se este convite atraente: "O que quer que você tenha feito, o que quer que se tenha tornado, não importa. Por favor, volte para casa."
Foi o que ela fez.
"Ele (o Filho) que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser..."

de Max Lucado

Escolhas



Se eu pudesse escolher, seria feliz por, pelo menos, oito horas por dia.
Todos os dias.
Reservaria o tempo restante para viver as pequenas agruras naturais.
Mas seriam leves.
Porque haveria a certeza de que a cada dia eu teria a minha cota de felicidade.
Se eu pudesse escolher, reservaria algumas horas, todos os dias,
para fazer só o que pudesse fazer os outros felizes.
Dedicação total.

Se eu pudesse escolher, pararia qualquer coisa que estivesse fazendo
às cinco horas da tarde e me sentaria para assistir ao pôr-do-sol.
Escolheria lugares especiais.
Procuraria não me repetir muito.
O horário do pôr-do-sol seria algo assim, sagrado.
O meu horário para observar a Deus.

Se eu pudesse escolher, viveria entre o mar e as montanhas.
No meio do caminho.
Nem muito longe de um, nem muito longe do outro.
Plantaria flores, teria vasos na janela, muitos livros na cabeceira da cama e à noite, depois do trabalho – sim, porque se eu pudesse escolher trabalharia sempre, produziria sempre – eu me sentaria para contemplar o céu, as estrelas, a noite.

Se eu pudesse escolher, sorriria sempre.
Mas choraria também, às vezes, para não esquecer o que a lágrima significa.
Viver só de sorrisos não é uma boa opção.

Se eu pudesse escolher, faria uma declaração de amor todos os dias.
Só para sentir aquele sabor de ridículo que nos enche a alma e que é imprescindível à felicidade.

Se eu pudesse escolher, plantaria sementes e “perderia” horas vendo-as germinar e lamentaria por aquelas que não conseguissem se transformar em flor.
Se eu pudesse escolher, viveria a vida de uma forma mais leve, menos dolorosa, mais intensa, menos angustiante.
Nem sempre temos como opções as escolhas que faríamos se pudéssemos escolher.
Mas há escolhas que nos são oferecidas sempre.
A de provocarmos sorrisos, de abraçarmos, de dizermos que amamos para quem amamos mesmo que eles não entendam o que é amor.
A possibilidade de transformarmos dentro de nós o cenário e aprendermos que, como não temos muitas escolhas, precisamos viver quinze minutos de felicidade com tanta intensidade que eles
possam ser transformados em horas, dias, meses, no tempo que escolheríamos.
Se pudéssemos escolher.

(Será que às vezes não podemos?)


(Maine Virginia Carvalho)

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